terça-feira, 3 de maio de 2016

Relato de Parto Gabriela Cabral Lino





            Gabriela é nossa terceira filha, a caçulinha, entretanto a primeira a ter nome. Sempre soubemos que teríamos nossa Gabizinha, mas foi o universo quem escolheu o momento em que ela iria chegar e nos transformar.

            Primeiro veio o Matheus, de uma gestação bem intensa e cheias de conturbações. No exame ultra-som de 13 semanas, chamado translucência nucal (TN), foi diagnosticado um aumento de sua TN, esse aumento poderia ser por algum problema genético ou cardíaco do nosso primogênito. Por conta disso fizemos vários exames adicionais para investigar o que poderia ser. Foram dias intensos, semanas intermináveis a espera de resultados e as respostas é de que não havia nada fora do normal e que teríamos que esperar para após o nascimento ver como tudo se desenrolaria.

            Lidar com essa incerteza foi angustiante para nós, afinal era nosso primeiro filho, estavamos radiantes com a gestação e com a chegada dele, mas tínhamos medo do que poderia acontecer.  

              Chegou o dia que Matheus iria nascer, estávamos muito ansiosos, mistura de sentimentos, feliz pelo nosso menininho estar nascendo e finalmente iríamos descobrir como ele se parecia e ao mesmo tempo, assustados e com medo do desconhecido se alguma coisa poderia acontecer com nosso maior tesouro. Nasceu Matheus de uma cesária agendada,  só o vi rapidamente, após as enfermeiras terem feito algumas coisas com ele, e o colocaram de ponta cabeça em relação ao meu rosto, para que eu pudesse vê-lo e tirar uma foto. Depois disso o levaram do centro cirúrgico e só o vi depois de mais de 12 horas na UTI. Ele ficou 3 dias entre UT I e UCI e depois de vários exames , deram alta para nós por ele não ter nenhuma alteração.

            Depois de quase 3 anos chegou Rafael, de uma gestação bem tranquila. Desta vez pude me preparar para o parto, pois depois de tudo que vivenciamos com a chegada do Matheus, eu sabia que queria que tudo fosse diferente. Fomos atrás de um nascimento mais respeitoso, tanto para filho como para os país e encontramos o parto humanizado, íamos semanalmente em encontros de um grupo de parto humanizado em nossa cidade e lá descobrimos muitas coisas além do que o que estavamos buscando.

            Rafael nasceu de um VBAC (VAGINAL BIRTH AFTER CESARIAN) hospitalar, com muito respeito e amor, nasceu e ficou no meu colo.

            Quando Rafael tinha 1 ano e 2 meses descobrimos que estava grávida novamente, uma felicidade junto com um frio na barriga, pois seria nosso terceiro filho, com uma diferença de idade muito pequena do nosso segundinho... e isso nos assustou muito!!!! Mas enfim... sempre dizíamos que queríamos três filhos... e ali estavamos tornando nosso desejo e sonho em realidade.

            Descobrimos no quinto mês de gestação que nossa Gabriela é quem estava sendo gerada em meu ventre... nossa tão sonhada e já tão real filha. Que alegria!!! Junto com essa notícia maravilhosa, a médica ultrassonografista nos pediu para fazer um exame adicional que se chama eco-cardiograma pois não estava conseguindo ver direito todo o seu coração. Bom, dado todo o alarde que tivemos com a gestação do nosso primogênito - Matheus, nem tomamos aquilo em consideração, pois não queríamos fazer exames em excesso e sem repercussão.

            Tínhamos uma viagem de férias marcado algumas semanas depois desse exame,  minha obstetra estava de licença maternidade, aliado a isso como já era minha terceira gestação e eu estava ótima , então deixamos para ir a consulta de pré-natal só depois que voltássemos das nossas férias, pois ai minha obstetra já estaria de volta.

            Estava já com um pouco mais de 6 meses de gestação, fui a mais uma consulta de pré-natal, após minhas férias e licença da minha médica. Lembro como se fosse hoje, estávamos conversando sobre maternidade enquanto ela checava os exames que havia me solicitado, entre eles o ultrassom morfológico que fiz com 5 meses de gestação. Ela lendo aquele exame parou a conversa e fez uma cara de assustada, eu percebi e falei para ela assim : "a você deve estar lendo ai que a medica do ultrassom solicitou para eu  fazer um eco - cardiograma, mas viu eu já falei com o André (meu marido) e não iremos fazer". Ela com muita delicadeza e respeito conversou comigo, disse que era melhor eu fazer, afinal eu queria um parto em casa, e para tal precisa ter certeza de que estava tudo bem com o bebê, para a segurança de todos, disse para eu pensar e conversar com o meu marido.

            A noite conversei com o meu marido, no dia seguinte conversei com nossa neo-natologista para ter também a opinião dela. Enfim, decidimos então por fazer o eco-cardiograma, mas queríamos um outro médico, pois não queríamos reviver nossas angustias com a gestação de nosso primeiro filho. Fomos então a uma médica em São Paulo para fazer o exame. O exame confirmou que nossa filha era portadora de uma cardiopatia congênita bastante grave e de que nossa vida iria ser muito difícil até seus 2 anos de idade entre cirurgias e longas internações hospitalares. Só isso que consegui ouvir das palavras da médica, que ficou explicando por mais de uma hora em detalhes como era essa doença e como era o prognostico. Nesse dia nosso chão desabou! Nossa filha teria que fazer sua primeira cirurgia nos primeiros dias de vida, com peito aberto, parada cardíaca, teria que nascer em outra cidade, meses de internação e mais uma cirurgia e depois de 2 anos a terceira cirurgia e nós com mais dois filhos para cuidar. Muita informação em um dia, para país que nem sabiam que isso tudo existia, e muito menos que isso estava  batendo a nossa porta.

            Muitas emoções vividas e lágrimas correram a partir deste dia, a notícia nos deixou em cacos mas com o tempo fomos nos acalmando, aceitando, se apoiando um ao outro e deixando a nova realidade entrar e trilhar um novo caminho. Fomos atrás de maiores informações, conversamos com pessoas que confiamos. Minha equipe de parto - obstetra, neo-natologista e doula -  disseram que nos acompanhariam mesmo sendo em outra cidade e isso foi providencial para que eu me sentisse segura e tranquila em relação ao parto de nossa querida filha.

            Com o diagnostico de cardiopatia congênita, a maioria dos médicos indicam um parto agendado para que dessa forma toda a equipe esteja a postos quando o bebe nascer. Mas eu queria um parto normal, queria respeitar o momento em que minha filha estivesse pronta para nascer, acreditava que isso era um grande fator de sucesso para ela ter vida e uma boa recuperação pós cirurgia. Dessa forma seu corpo todo estaria em perfeito funcionamento, pois o bebe nasce quando seus corpo está pronto,  restando aos médicos apenas a grande tarefa de "concertar" seu pequeno coração.  E eu tive a sorte de ter ótimos profissionais ao meu lado que concordavam com o que eu acreditava.
            E no dia 5 de outubro de 2014 senti que minha bolsa rompeu, estava junto do meu marido e filhos , era um domingo de manhã e estávamos no campus de uma universidade aproveitando uma programação cultural infantil, quando senti que minha calça molhou, fui ao banheiro e de fato havia molhado, coloquei um absorvente, falei com meu marido e fomos embora. No caminho falei com minha obstetra e ela disse para prestar atenção a quantidade de líquido que saia, pois ainda não era muita coisa, ela disse que deveria ser uma ruptura alta, e portanto poderia ficar tranquila e ir observando e avisá-la. Passei o dia serena, descansei bastante, sem muito esforço, deitada e conversando e conectando muito com minha pequena. Estava muito feliz, pois não via a hora dela chegar, estava com 40 semanas e 2 dias e já estávamos prontas para nossa grande aventura e jornada fora da barriga.
      
      Na segunda feira, meu marido ficou trabalhando de casa, aproveitamos para marcar pela manhã nossa terapia, que eu fazia desde que descobri a terceira gestação e meu marido a partir do descobrimento da doença da nossa filha, nas ultimas semanas estávamos indo junto para nos unir ainda mais para passar pela etapa que estávamos prestes a entrar. Depois fomos ao consultório da minha obstetra, ela me examinou, estava ainda com contrações bem pequenas e bem espaçadas. Ela disse que achava que nasceria no dia seguinte - que eu deveria descansar.

            Saímos de lá, pegamos os meninos que estavam na casa dos meus pais, e fomos para uma doceria com eles, queríamos ter uma tarde gostosa só nós 4, eu e o André sabíamos que poderia ser o ultimo dia apenas nos 4 ali. Depois fomos para casa, e passamos o final da tarde bem gostosa terminando com uma volta no nosso condomínio olhando para o céu e tendo de presente uma linda lua cheia a olhar. Pedi aquela lua que trouxesse minha filha e que desse a ela todo aquele brilho e poder para que ela pudesse enfrentar seu destino e ter a oportunidade dela mesma um dia poder ver aquela lua com os seus próprios olhos e toda a beleza que é a vida aqui fora.

            No dia seguinte, terça feira dia 7 de outubro, acordei já com contrações, mistura de emoções, alegria por estar chegando a hora de finalmente conhecer minha pequena e ao mesmo tempo um aperto no peito de tristeza pois sabia que aquele dia iria me ausentar dos meus dois filhos tão amados e tão pequenos e sem data para voltar. Fizemos café da manhã em família e minhas contrações não paravam, volta e meia elas vinham e eu tinha que me levantar me apoiar em algo e me concentrar na respiração.

            Logo após o café meu marido levou o mais velho para a escola e o menor para a casa da avó, me despedi deles sem muita delongas, com um abraço bem apertado e um beijo bem gostoso dizendo a eles o quanto os amava, e lá foram eles, ao ver o carro partir meu coração disparou e meus olhos debulharam lágrimas. Fui tomar um banho para me acalmar e depois fiquei deitada no sofá, pois as contrações deram uma parada. Antes que meu marido chegasse, chego a auxiliar da minha obstetra para me avaliar e ver como eu estava. Ela conversou comigo, me avaliou e disse que se eu quisesse que minha filha nascesse ainda com o sol do dia  que era para eu levantar e darmos uma caminhada para acelerar o processo. Era isso que precisava, não queria estar sozinha naquele momento, me levantei e ao sair de casa, chegou o meu marido! Fomos indo na frente eu e a Jessica e ele ia colocar uma roupa mais leve para nos acompanhar, estava um dia muito quente.

            Demos uma 4 longas voltas pelas ruas arborizadas do meu bairro, a cada volta minhas contrações ficavam mais intensas e eu já tinha que parar de andar e me concentrar a cada uma que chegava. Na ultima volta, minha obstetra ligou e falou comigo, disse que já era melhor sairmos de casa e ir para a maternidade em São Paulo, para dar tempo de chegar lá com tranquilidade. Voltei para casa, dei uma chuveirada rápida, as malas já estavam prontas no carro e fomos. Fui pegar minha doula em sua casa - ela morava perto de nós, pois ela iria conosco para o hospital e dei uma passada rápida na casa da minha terapeuta-amiga, para dar um tchau e receber seu abraço tão amoroso e mais uma vez veio o choro... choro de tristeza por estar indo embora de cidade, deixando meus filhos. Mas aquilo era necessário, para o bem da nossa filha.. e com um abraço daqueles de acalmar o coração e a alma nos despedimos e fomos rumo a São Paulo.

            Durante a viagem fui eu sozinha no banco de trás com meu marido e doula na frente, fui tentando conversar, mas as contrações estavam me impedindo, elas estavam vindo e a medida que se aproximava mais de São Paulo mais intensas e próximas foram ficando, fiquei a maior parte do tempo de joelhos no banco de costas para os dois e só percebia a movimentação da minha doula e marido preocupados comigo e acelerando a velocidade do carro. Foi como uma passe de mágica, assim que coloquei os pés no chão ao chegar no hospital, as contrações se dispararam com toda sua energia sem tempo de pausa. Andar era uma tarefa dura, mas era melhor do que ficar sentada, então fui andando e a medida que vinha uma contração parava e já não conseguia mais ficar calada, um som ecoava de dentro de mim para fora. E foi um tal de vai pra la e pra cá dentro daquele hospital até que chegamos no PS onde já estava uma obstetra parceira da minha médica a minha espera no hospital. Ela me deu entrada, auscultou meu bebê.. e eu lá sem tréguas, as contrações não davam tempo de folga, não conseguia conversar com ninguém e só percebia a movimentação do meu marido ligando mais uma vez para a equipe do cirurgião cardíaco para avisá-los que nossa Gabi estava nascendo.

            O segurança me fez sentar na cadeira de rodas para me levar até o quarto do parto, sentar era a pior posição para estar na hora das contrações, mas logo chegamos e eu me levantei, já estava apenas de camisola do hospital nesse momento, meu marido e doula arrumando as coisas no quarto, colocando musica, enchendo a banheira e eu tentando achar uma posição para ficar enquanto as enfermeiras não paravam de querer me cutucar, elas precisavam me puncionar para colocar um medicamento na minha veia pois meus exames de pré-natal havia dado é Streptococcus positivo.

            Logo em seguida chegaram minha obstetra e neo-natologista, que maravilha! Não consegui nem falar com elas, as contrações não estavam me deixando, estava mal conseguindo respirar, elas não me davam tempo de pausa, era uma atrás da outra, quando me vi parada no meio do corredor do quarto, logo na entrada da porta, impedindo que qualquer um saísse do quarto ou entrasse, e lá veio uma contração tão forte que eu tomei forças para respirar e gritei para minha obstetra - por favor preciso de uma anestesia, não aguento mais!!!! - e foi assim em passe de mágicas novamente que minha dor ACABOU e veio uma vontade louca de fazer força.

            Me conduziram até o canto do quarto, onde meu marido sentou na cadeira e me segurou de cócoras, comecei a fazer força a cada contração que vinha e nos outros minutos conseguia respirar e me conectar com minha filha e com nosso amor, ela estava lá nos seus últimos minutos dentro de mim,  estava curtindo aquela sensação. Foram poucas contrações, longos puxos e ela nasceu e veio para meu colo. Ali o tempo parou, a paz se instaurou e o amor se multiplicou!

            Fiquei com ela em meus braços, sussurrando em seu ouvido e beijando-a. Ela era tão pequenininha, tão levinha, tão delicada e logo iria começar sua batalha para sua sobrevivência. Nos levaram ate a cama e lá ficamos eu e ela no meu colo e meu marido ao nosso lado, os três juntos, quietos, olhando maravilhados para aquele nosso anjo que havia nascido, que já era tão amada.

            Depois de uma meia hora - quarenta minutos, mas que para mim pareciam-se já horas, meu marido cortou o cordão umbilical e a neo-natologista me disse que era a hora de levá-la. Ela iria para a UTI, eu sempre soube que isso iria acontecer, e já havia trabalhado tudo isso dentro de mim, dei um beijo nela  sussurrei em seu ouvido e entreguei meu bem mais precioso a ela onde ela acompanhou até a internação na UTI, meu choro só veio depois de 48 horas, mas isso é história para outro relato.

            Fiquei ainda um tempo no quarto de parto, com meu marido e o restante da equipe lá me dando forças e logo as enfermeiras do hospital já me levaram para o quarto onde ficaria internada e a equipe se despediu de nós.

            Eu estava tão feliz pelo nascimento da minha filha, transbordada de ocitocina, foi um parto lindo, intenso, com muito respeito,  minhas necessidades foram atendidas e isso só se deveu ao fato de ter minha equipe lá, pessoas que não se apavoraram por se tratar de um bebé com um problema cardíaco, que trabalharam sob muita segurança e me deixaram ficar com minha filha o tempo certo. Cheguei no quarto e estava tão bem que já fui tomar um banho para me limpar e ir ver minha pequena na UTI, onde pude ficar com ela no meu colo todo o tempo.

            Depois de 3 dias de vida entregamos ela para seu renascimento. Foram mais de 6 horas de cirurgia. A Gabriela ficou internada 101 dias direto desde seu nascimento, realizando uma cirurgia cardíaca. Teve alta para casa e depois de 45 dias voltou para o hospital para realizar sua segunda etapa cirúrgica, mais 68 dias de internação juntamente com 3 cirurgias, sendo 2 cardíacas. Voltamos para casa para ficarmos finalmente os cinco juntos em família, após quase 7 meses de vida. Nossa filhinha ainda irá realizar mais uma cirurgia cardíaca...

            Esses meses foram de muito aprendizado, de muitas emoções, vitórias, aprendi muitas coisas, mas o principal foi testemunhar a força que o amor tem. Foi por amor à minha filha que dormi sentada em poltronas, que ia ordenhar leite, que não arredava o pé do hospital. Vi a força que um ser tão pequeno tem dentro de si para lutar as batalhas mais pesadas e sair delas com tanta leveza. Sou grata por tudo que meus filhos me ensinam, dia após dia.
                                                                                                                                 


2 comentários:

  1. Revivi com as palavras da Carol todos os últimos anos ,quando eu e meu marido acompanhamos com amor,alegria e às vezes com tristeza a trajetória que esse casal,meu filho e minha nora têm enfrentado,com firmeza, alegria e esperança, e o resultado está aí:3 crianças lindas e muito amadas.

    ResponderExcluir
  2. Revivi com as palavras da Carol todos os últimos anos ,quando eu e meu marido acompanhamos com amor,alegria e às vezes com tristeza a trajetória que esse casal,meu filho e minha nora têm enfrentado,com firmeza, alegria e esperança, e o resultado está aí:3 crianças lindas e muito amadas.

    ResponderExcluir