Relato de Parto
Gabriela Cabral Lino
Gabriela é
nossa terceira filha, a caçulinha, entretanto a primeira a ter nome. Sempre
soubemos que teríamos nossa Gabizinha, mas foi o universo quem escolheu o
momento em que ela iria chegar e nos transformar.
Primeiro veio o Matheus, de uma
gestação bem intensa e cheias de conturbações. No exame ultra-som de 13
semanas, chamado translucência nucal (TN), foi diagnosticado um aumento de sua
TN, esse aumento poderia ser por algum problema genético ou cardíaco do nosso primogênito.
Por conta disso fizemos vários exames adicionais para investigar o que poderia
ser. Foram dias intensos, semanas intermináveis a espera de resultados e as
respostas é de que não havia nada fora do normal e que teríamos que esperar
para após o nascimento ver como tudo se desenrolaria.
Lidar com
essa incerteza foi angustiante para nós, afinal era nosso primeiro filho, estavamos
radiantes com a gestação e com a chegada dele, mas tínhamos medo do que poderia
acontecer.
Chegou
o dia que Matheus iria nascer, estávamos muito ansiosos, mistura de
sentimentos, feliz pelo nosso menininho estar nascendo e finalmente iríamos
descobrir como ele se parecia e ao mesmo tempo, assustados e com medo do
desconhecido se alguma coisa poderia acontecer com nosso maior tesouro. Nasceu
Matheus de uma cesária agendada, só o vi
rapidamente, após as enfermeiras terem feito algumas coisas com ele, e o
colocaram de ponta cabeça em relação ao meu rosto, para que eu pudesse vê-lo e
tirar uma foto. Depois disso o levaram do centro cirúrgico e só o vi depois de
mais de 12 horas na UTI. Ele ficou 3 dias entre UT I e UCI e depois de vários
exames , deram alta para nós por ele não ter nenhuma alteração.
Depois de
quase 3 anos chegou Rafael, de uma gestação bem tranquila. Desta vez pude me
preparar para o parto, pois depois de tudo que vivenciamos com a chegada do
Matheus, eu sabia que queria que tudo fosse diferente. Fomos atrás de um
nascimento mais respeitoso, tanto para filho como para os país e encontramos o
parto humanizado, íamos semanalmente em encontros de um grupo de parto
humanizado em nossa cidade e lá descobrimos muitas coisas além do que o que
estavamos buscando.
Rafael
nasceu de um VBAC (VAGINAL BIRTH AFTER CESARIAN) hospitalar, com muito respeito
e amor, nasceu e ficou no meu colo.
Quando Rafael tinha 1 ano e 2 meses
descobrimos que estava grávida novamente, uma felicidade junto com um frio na
barriga, pois seria nosso terceiro filho, com uma diferença de idade muito
pequena do nosso segundinho... e isso nos assustou muito!!!! Mas enfim...
sempre dizíamos que queríamos três filhos... e ali estavamos tornando nosso
desejo e sonho em realidade.
Descobrimos
no quinto mês de gestação que nossa Gabriela é quem estava sendo gerada em meu
ventre... nossa tão sonhada e já tão real filha. Que alegria!!! Junto com essa
notícia maravilhosa, a médica ultrassonografista nos pediu para fazer um exame
adicional que se chama eco-cardiograma pois não estava conseguindo ver direito
todo o seu coração. Bom, dado todo o alarde que tivemos com a gestação do nosso
primogênito - Matheus, nem tomamos aquilo em consideração, pois não queríamos
fazer exames em excesso e sem repercussão.
Tínhamos uma
viagem de férias marcado algumas semanas depois desse exame, minha obstetra estava de licença maternidade,
aliado a isso como já era minha terceira gestação e eu estava ótima , então
deixamos para ir a consulta de pré-natal só depois que voltássemos das nossas
férias, pois ai minha obstetra já estaria de volta.
Estava já
com um pouco mais de 6 meses de gestação, fui a mais uma consulta de pré-natal,
após minhas férias e licença da minha médica. Lembro como se fosse hoje, estávamos
conversando sobre maternidade enquanto ela checava os exames que havia me
solicitado, entre eles o ultrassom morfológico que fiz com 5 meses de gestação.
Ela lendo aquele exame parou a conversa e fez uma cara de assustada, eu percebi
e falei para ela assim : "a você deve estar lendo ai que a medica do
ultrassom solicitou para eu fazer um eco
- cardiograma, mas viu eu já falei com o André (meu marido) e não iremos
fazer". Ela com muita delicadeza e respeito conversou comigo, disse que
era melhor eu fazer, afinal eu queria um parto em casa, e para tal precisa ter
certeza de que estava tudo bem com o bebê, para a segurança de todos, disse
para eu pensar e conversar com o meu marido.
A noite
conversei com o meu marido, no dia seguinte conversei com nossa neo-natologista
para ter também a opinião dela. Enfim, decidimos então por fazer o
eco-cardiograma, mas queríamos um outro médico, pois não queríamos reviver
nossas angustias com a gestação de nosso primeiro filho. Fomos então a uma
médica em São Paulo para fazer o exame. O exame confirmou que nossa filha era
portadora de uma cardiopatia congênita bastante grave e de que nossa vida iria
ser muito difícil até seus 2 anos de idade entre cirurgias e longas internações
hospitalares. Só isso que consegui ouvir das palavras da médica, que ficou
explicando por mais de uma hora em detalhes como era essa doença e como era o
prognostico. Nesse dia nosso chão desabou! Nossa filha teria que fazer sua
primeira cirurgia nos primeiros dias de vida, com peito aberto, parada
cardíaca, teria que nascer em outra cidade, meses de internação e mais uma
cirurgia e depois de 2 anos a terceira cirurgia e nós com mais dois filhos para
cuidar. Muita informação em um dia, para país que nem sabiam que isso tudo
existia, e muito menos que isso estava batendo
a nossa porta.
Muitas
emoções vividas e lágrimas correram a partir deste dia, a notícia nos deixou em
cacos mas com o tempo fomos nos acalmando, aceitando, se apoiando um ao outro e
deixando a nova realidade entrar e trilhar um novo caminho. Fomos atrás de
maiores informações, conversamos com pessoas que confiamos. Minha equipe de
parto - obstetra, neo-natologista e doula -
disseram que nos acompanhariam mesmo sendo em outra cidade e isso foi
providencial para que eu me sentisse segura e tranquila em relação ao parto de
nossa querida filha.
Com o
diagnostico de cardiopatia congênita, a maioria dos médicos indicam um parto
agendado para que dessa forma toda a equipe esteja a postos quando o bebe
nascer. Mas eu queria um parto normal, queria respeitar o momento em que minha
filha estivesse pronta para nascer, acreditava que isso era um grande fator de
sucesso para ela ter vida e uma boa recuperação pós cirurgia. Dessa forma seu
corpo todo estaria em perfeito funcionamento, pois o bebe nasce quando seus
corpo está pronto, restando aos médicos
apenas a grande tarefa de "concertar" seu pequeno coração. E eu tive a sorte de ter ótimos profissionais
ao meu lado que concordavam com o que eu acreditava.
E no dia 5
de outubro de 2014 senti que minha bolsa rompeu, estava junto do meu marido e
filhos , era um domingo de manhã e estávamos no campus de uma universidade
aproveitando uma programação cultural infantil, quando senti que minha calça
molhou, fui ao banheiro e de fato havia molhado, coloquei um absorvente, falei
com meu marido e fomos embora. No caminho falei com minha obstetra e ela disse
para prestar atenção a quantidade de líquido que saia, pois ainda não era muita
coisa, ela disse que deveria ser uma ruptura alta, e portanto poderia ficar
tranquila e ir observando e avisá-la. Passei o dia serena, descansei bastante,
sem muito esforço, deitada e conversando e conectando muito com minha pequena.
Estava muito feliz, pois não via a hora dela chegar, estava com 40 semanas e 2
dias e já estávamos prontas para nossa grande aventura e jornada fora da
barriga.
Na segunda
feira, meu marido ficou trabalhando de casa, aproveitamos para marcar pela
manhã nossa terapia, que eu fazia desde que descobri a terceira gestação e meu
marido a partir do descobrimento da doença da nossa filha, nas ultimas semanas estávamos
indo junto para nos unir ainda mais para passar pela etapa que estávamos
prestes a entrar. Depois fomos ao consultório da minha obstetra, ela me
examinou, estava ainda com contrações bem pequenas e bem espaçadas. Ela disse
que achava que nasceria no dia seguinte - que eu deveria descansar.
Saímos de
lá, pegamos os meninos que estavam na casa dos meus pais, e fomos para uma
doceria com eles, queríamos ter uma tarde gostosa só nós 4, eu e o André
sabíamos que poderia ser o ultimo dia apenas nos 4 ali. Depois fomos para casa,
e passamos o final da tarde bem gostosa terminando com uma volta no nosso condomínio
olhando para o céu e tendo de presente uma linda lua cheia a olhar. Pedi aquela
lua que trouxesse minha filha e que desse a ela todo aquele brilho e poder para
que ela pudesse enfrentar seu destino e ter a oportunidade dela mesma um dia
poder ver aquela lua com os seus próprios olhos e toda a beleza que é a vida
aqui fora.
No dia seguinte, terça feira dia 7 de
outubro, acordei já com contrações, mistura de emoções, alegria por estar
chegando a hora de finalmente conhecer minha pequena e ao mesmo tempo um aperto
no peito de tristeza pois sabia que aquele dia iria me ausentar dos meus dois
filhos tão amados e tão pequenos e sem data para voltar. Fizemos café da manhã
em família e minhas contrações não paravam, volta e meia elas vinham e eu tinha
que me levantar me apoiar em algo e me concentrar na respiração.
Logo após o
café meu marido levou o mais velho para a escola e o menor para a casa da avó,
me despedi deles sem muita delongas, com um abraço bem apertado e um beijo bem
gostoso dizendo a eles o quanto os amava, e lá foram eles, ao ver o carro
partir meu coração disparou e meus olhos debulharam lágrimas. Fui tomar um
banho para me acalmar e depois fiquei deitada no sofá, pois as contrações deram
uma parada. Antes que meu marido chegasse, chego a auxiliar da minha obstetra
para me avaliar e ver como eu estava. Ela conversou comigo, me avaliou e disse
que se eu quisesse que minha filha nascesse ainda com o sol do dia que era para eu levantar e darmos uma
caminhada para acelerar o processo. Era isso que precisava, não queria estar
sozinha naquele momento, me levantei e ao sair de casa, chegou o meu marido!
Fomos indo na frente eu e a Jessica e ele ia colocar uma roupa mais leve para
nos acompanhar, estava um dia muito quente.
Demos uma 4
longas voltas pelas ruas arborizadas do meu bairro, a cada volta minhas
contrações ficavam mais intensas e eu já tinha que parar de andar e me
concentrar a cada uma que chegava. Na ultima volta, minha obstetra ligou e
falou comigo, disse que já era melhor sairmos de casa e ir para a maternidade
em São Paulo, para dar tempo de chegar lá com tranquilidade. Voltei para casa,
dei uma chuveirada rápida, as malas já estavam prontas no carro e fomos. Fui
pegar minha doula em sua casa - ela morava perto de nós, pois ela iria conosco
para o hospital e dei uma passada rápida na casa da minha terapeuta-amiga, para
dar um tchau e receber seu abraço tão amoroso e mais uma vez veio o choro...
choro de tristeza por estar indo embora de cidade, deixando meus filhos. Mas
aquilo era necessário, para o bem da nossa filha.. e com um abraço daqueles de
acalmar o coração e a alma nos despedimos e fomos rumo a São Paulo.
Durante a
viagem fui eu sozinha no banco de trás com meu marido e doula na frente, fui
tentando conversar, mas as contrações estavam me impedindo, elas estavam vindo
e a medida que se aproximava mais de São Paulo mais intensas e próximas foram
ficando, fiquei a maior parte do tempo de joelhos no banco de costas para os
dois e só percebia a movimentação da minha doula e marido preocupados comigo e
acelerando a velocidade do carro. Foi como uma passe de mágica, assim que
coloquei os pés no chão ao chegar no hospital, as contrações se dispararam com
toda sua energia sem tempo de pausa. Andar era uma tarefa dura, mas era melhor
do que ficar sentada, então fui andando e a medida que vinha uma contração
parava e já não conseguia mais ficar calada, um som ecoava de dentro de mim
para fora. E foi um tal de vai pra la e pra cá dentro daquele hospital até que
chegamos no PS onde já estava uma obstetra parceira da minha médica a minha
espera no hospital. Ela me deu entrada, auscultou meu bebê.. e eu lá sem
tréguas, as contrações não davam tempo de folga, não conseguia conversar com
ninguém e só percebia a movimentação do meu marido ligando mais uma vez para a
equipe do cirurgião cardíaco para avisá-los que nossa Gabi estava nascendo.
O segurança
me fez sentar na cadeira de rodas para me levar até o quarto do parto, sentar
era a pior posição para estar na hora das contrações, mas logo chegamos e eu me
levantei, já estava apenas de camisola do hospital nesse momento, meu marido e
doula arrumando as coisas no quarto, colocando musica, enchendo a banheira e eu
tentando achar uma posição para ficar enquanto as enfermeiras não paravam de
querer me cutucar, elas precisavam me puncionar para colocar um medicamento na
minha veia pois meus exames de pré-natal havia dado é Streptococcus positivo.
Logo em
seguida chegaram minha obstetra e neo-natologista, que maravilha! Não consegui
nem falar com elas, as contrações não estavam me deixando, estava mal conseguindo
respirar, elas não me davam tempo de pausa, era uma atrás da outra, quando me
vi parada no meio do corredor do quarto, logo na entrada da porta, impedindo
que qualquer um saísse do quarto ou entrasse, e lá veio uma contração tão forte
que eu tomei forças para respirar e gritei para minha obstetra - por favor
preciso de uma anestesia, não aguento mais!!!! - e foi assim em passe de
mágicas novamente que minha dor ACABOU e veio uma vontade louca de fazer força.
Me
conduziram até o canto do quarto, onde meu marido sentou na cadeira e me
segurou de cócoras, comecei a fazer força a cada contração que vinha e nos
outros minutos conseguia respirar e me conectar com minha filha e com nosso
amor, ela estava lá nos seus últimos minutos dentro de mim, estava curtindo aquela sensação. Foram poucas
contrações, longos puxos e ela nasceu e veio para meu colo. Ali o tempo parou,
a paz se instaurou e o amor se multiplicou!
Fiquei com
ela em meus braços, sussurrando em seu ouvido e beijando-a. Ela era tão
pequenininha, tão levinha, tão delicada e logo iria começar sua batalha para
sua sobrevivência. Nos levaram ate a cama e lá ficamos eu e ela no meu colo e
meu marido ao nosso lado, os três juntos, quietos, olhando maravilhados para
aquele nosso anjo que havia nascido, que já era tão amada.
Depois de
uma meia hora - quarenta minutos, mas que para mim pareciam-se já horas, meu
marido cortou o cordão umbilical e a neo-natologista me disse que era a hora de
levá-la. Ela iria para a UTI, eu sempre soube que isso iria acontecer, e já
havia trabalhado tudo isso dentro de mim, dei um beijo nela sussurrei em seu ouvido e entreguei meu bem mais precioso a ela onde ela acompanhou até a internação na UTI, meu choro só
veio depois de 48 horas, mas isso é história para outro relato.
Fiquei ainda
um tempo no quarto de parto, com meu marido e o restante da equipe lá me dando
forças e logo as enfermeiras do hospital já me levaram para o quarto onde
ficaria internada e a equipe se despediu de nós.
Eu estava tão
feliz pelo nascimento da minha filha, transbordada de ocitocina, foi um parto
lindo, intenso, com muito respeito, minhas necessidades foram atendidas e
isso só se deveu ao fato de ter minha equipe lá, pessoas que não se apavoraram
por se tratar de um bebé com um problema cardíaco, que trabalharam sob muita
segurança e me deixaram ficar com minha filha o tempo certo. Cheguei no quarto e estava tão bem
que já fui tomar um banho para me limpar e ir ver minha pequena na UTI, onde
pude ficar com ela no meu colo todo o tempo.
Depois de 3
dias de vida entregamos ela para seu renascimento. Foram mais de 6 horas de
cirurgia. A Gabriela ficou internada 101 dias direto desde seu nascimento,
realizando uma cirurgia cardíaca. Teve alta para casa e depois de 45 dias
voltou para o hospital para realizar sua segunda etapa cirúrgica, mais 68 dias
de internação juntamente com 3 cirurgias, sendo 2 cardíacas. Voltamos para casa
para ficarmos finalmente os cinco juntos em família, após quase 7 meses de
vida. Nossa filhinha ainda irá realizar mais uma cirurgia cardíaca...
Esses meses
foram de muito aprendizado, de muitas emoções, vitórias, aprendi muitas coisas,
mas o principal foi testemunhar a força que o amor tem. Foi por amor à minha
filha que dormi sentada em poltronas, que ia ordenhar leite, que não arredava o
pé do hospital. Vi a força que um ser tão pequeno tem dentro de si para lutar
as batalhas mais pesadas e sair delas com tanta leveza. Sou grata por tudo que
meus filhos me ensinam, dia após dia.

Revivi com as palavras da Carol todos os últimos anos ,quando eu e meu marido acompanhamos com amor,alegria e às vezes com tristeza a trajetória que esse casal,meu filho e minha nora têm enfrentado,com firmeza, alegria e esperança, e o resultado está aí:3 crianças lindas e muito amadas.
ResponderExcluirRevivi com as palavras da Carol todos os últimos anos ,quando eu e meu marido acompanhamos com amor,alegria e às vezes com tristeza a trajetória que esse casal,meu filho e minha nora têm enfrentado,com firmeza, alegria e esperança, e o resultado está aí:3 crianças lindas e muito amadas.
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